Eu nunca
morei na cidade do Rio de Janeiro. Já fui algumas (bastantes) vezes, pelos mais
diferentes motivos, mas nunca morei. Então não faço a menor ideia de como é
viver, de fato, tendo que conviver com a insegurança de andar no Centro e/ou
ter que conviver com um número gigantesco de pedintes, que podem te pedir por
dinheiro ou simplesmente te esfaquear por causa de uma carteira ou celular.
Nunca vivi isso plenamente. Enfraquece meus argumentos? Talvez, mas por outro
lado me dá um senso de perspectiva pra analisar algum fato que aconteça por lá.
O último fim
de semana foi marcado por furtos, arrastões, tumultos e confrontos nas praias
da Zona Sul. Infelizmente, boa parte desses fatos não chega a ser uma novidade, o fato novo foi a ação de grupos de pessoas agredindo os supostos praticantes dos crimes.
(mais a frente foi explicar esse “supostos”). A minha reação ao ler sobre o
fato e ver os vídeos foi simples: “Caralho, tá tudo errado!”
Uma cidade e
uma sociedade chegar a esse ponto é reflexo da total incompetência das
instituições como organizadoras dessa sociedade. Isso é simples de entender,
até óbvio. Não há segurança, mas esse sentimento eu já encaro também como uma
reação. Acredito que o grande estopim disso tudo seja a impunidade (como muita
coisa nesse país). A partir disso: ninguém tem medo de praticar crime, pois
sabe que a chance de ser punido – de verdade – é mínima. E quem sofre com os
crimes praticados acaba cada vez mais emputecido e com sensação de impotência,
pois não percebe mudanças.
Mas voltando
a minha reação ao acontecido do último fim de semana, por que eu digo que está
tudo errado? Porque é errado furtar (não me diga?) e também porque é errado
fazer “justiça” com as próprias mãos e sair dando porrada por aí (não me diga?
2). Eu não vou aqui minimizar as ações dos menores infratores. Sei que há uma
visão deles como vítimas da sociedade, e talvez (provavelmente) de fato sejam,
mas se infringe uma lei, tá errado, e se está errado merece ser punido. Simples
assim. Agora, eu também não vou achar bonito juntar uma galera, autodeclarar-se “justiceiro” e sair caçando favelado em ônibus. Ou seja, e vou repetir, está
tudo errado nessa merda.
Eu entendo
que a reação natural quando é furtado ou vê alguém sendo, é correr atrás e ter
vontade de agredir o praticante do crime, eu realmente entendo porque é
revoltante pra caramba. Ação e reação. Mas se formos viver numa sociedade
regida por ação e reação, boa sorte vivendo num mundo onde o Código de Hamurabi
é lei. No mundo ideal, quando conseguisse colocar a mão em alguém que cometeu
um crime, deveria acabar ali e encaminhar tal pessoa até a autoridade, mas a
gente sabe que as reações não são essas. No mundo ideal crimes nem
aconteceriam, então não faz muito sentido eu ficar pensando em reações do mundo
ideal.
Além do
risco de uma pequena guerra civil, outro perigo da formação desses grupos de “justiceiros”
(puta termo feio e mal empregado, pelo amor) é o pré conceito. Aqui que explico
o “suposto” lá de cima. Eu sei que pode ser difícil colocar isso na cabeça da
galera que não pensa mais do que dois segundos (mas sabe a cotação do Whey):
nem todo moleque do subúrbio é bandido, e nem todos eles vão pra praia pulando
roleta de ônibus e voltam pra casa com aquele celular indevido. Pode parecer
incrível pra você, mas alguns deles só querem curtir a praia. E aí? Você na
cegueira da sua “justiça” vai conseguir identificar e diferenciar não sendo
preconceituoso? Se sim, eu te dou meus parabéns, você é um cara foda. Mas eu
duvido. É mais fácil colocar todo mundo no mesmo bolo. Eu sei que é.
"Então, o que
você sugere?" É uma pergunta que eu também me faria se estivesse lendo esse
texto. Muito bem por pensar nisso, amiguinho. Eu não sou o Beltrame, então não
me culpe se as minhas sugestões forem completamente imbecis, amadoras e não funcionais.
Eu acho que a solução pra qualquer problema passa pela prevenção. Se eu não
estou com saco pra conviver com determinada pessoa, eu vou evitar ir ao mesmo
ambiente que essa pessoa. Isso é prevenção. Não vai adiantar somente aumentar o
policiamento na praia. Ajuda? Sim. Mas não resolve. Do mesmo jeito que meu
relacionamento com a pessoa chata não vai melhorar se tiver mais gente legal em
volta (exemplo lixoso, eu sei).
É basicamente impossível controlar milhares
(milhões, talvez) de pessoas aglomeradas numa faixa de areia e garantir que
nada aconteça. Então o ideal é que se busque uma minimização dos problemas,
principalmente no início da tentativa de solução. Usa o setor de Inteligência
da Polícia pra fazer o monitoramento das linhas de ônibus que historicamente
são as mais problemáticas (aqui há um pré conceito, eu sei). Checa e observa as redes sociais atrás de informações sobre a criação dos grupos de "justiça". Coloca polícias a
paisana (na praia e nos ônibus), informando à central sobre atividades criminais praticadas. Cria
barreiras de revista, talvez no Centro da cidade (bem antes de chegar às
praias), e que também ajudariam no acompanhamento de arruaceiros. Aumenta o
senso de fiscalização (sei que é uma bosta, mas é uma necessidade inicial). Apreende
e pune de forma verdadeira e definitiva aqueles que cometeram delitos. Faz
alguma coisa!
Eu não sei se isso resolve, mas eu imagino que ajude. Diminui a insegurança,
diminui a irritação da população, torna a ação dos “justiceiros” ainda mais
imbecil e menos defensável (sim, tem quem defenda. Você conhece alguém que
defenda essa ideia, sem a menor dúvida).
E o meu conselho
pra mais um fim de semana de um calor absurdamente infernal? Vá à praia! Não
deixe de ir por conta de insegurança. É esse o objetivo de quem gosta de “tocar o
terror”. E por favor, não seja um daqueles que sai por aí compartilhando
informações via rede social sem checar ou saber. Em tempos de comunicação
fácil, a histeria por conta de desinformação também é facilitada.
Um beijo e boa praia.
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